
ELE (NÃO) ESTÁ AQUI.
Era um 2 de novembro, e já fazia quase um ano que havíamos ido àquele ambiente realisticamente mórbido, onde jurei nunca mais voltar. Lá estava eu, dessa vez sozinho, diante do caiado sepulcro emprestado pelos frades. Mas o ex-franciscano não estava ali. Nunca esteve.
Lembrei-me de que, uns onze meses antes, pela extrema necessidade daquele instante, todos nós estávamos. Priorizamos o tempo de estar. Amigos, conhecidos, curiosos admiradores e parentes também estiveram ali às centenas, movidos pela força do hábito ou pelo compromisso social. Houve cânticos marcantes... “Ó Mestre, fazei que eu procure mais: consolar que ser consolado”, ou o não menos tradicional “Segura na mão de Deus e vai...”. O ex-frei Demétrio, o nosso João Batista, ficou. Era apenas seu corpo cansado, vencido pelo câncer, que recebia o ultimato da sentença: daquela vez, o cárcere seria a mais simples caixa fúnebre, por ele sempre dispensável, como costumava dizer. Gostaria de ser conduzido em um pequeno cortejo, numa rede, até ser colocado em uma vala qualquer da zona rural, como nos tempos antigos, de raras posses e nenhum protocolo.
Tivemos que descumprir parcialmente os planos de um espiritualista que transcendia os hábitos. Após as colheradas do pedreiro, já não me lembrava das poucas palavras, improvisadas, que eu deixaria sobre o cimento ainda fresco. Quem dera ser um intelectual como ele ou o tio João (Brito), para poder parafrasear Mário Quintana em sua lápide: “Eu não estou aqui”.
O professor, pai, marido, homem de alma e prática franciscana por excelência, jamais poderia resumir-se àquele encarceramento em alvenaria. A decomposição da carne seria, dali em diante, infinitamente menor que a força VIVA do VERBO. E a matéria de carbono se fez VERBO sólido a partir de então.
Recordei as palavras simples que, soando como mau presságio, aquele sábio homem pronunciara tempos atrás, deixando em pânico a tensa esposa e alertando seu pequeno filho: “Quando eu bater as botas, não cumpram ritos. Eu nunca soube sequer onde ficava o túmulo de D. Maria Correia, a minha amada mãe. Não procurem saber onde será o meu. Só não esqueçam do meu endereço em VIDA!”.
Tentei cumprir integralmente a promessa. Mas, naquele 2 de novembro de 1995, um impulso emocional me fez visitar o cemitério da vizinha cidade de Lagoa Seca. Fazia quase um ano da partida do “frei” e, quem diria, lá estava eu, praticando rituais. Já era o final do dia, e ainda pude ver um mar de gente levando flores aos mortos, montando mesas fartas sobre os túmulos, acendendo velas e cantando saudades. Ouvi fanáticos acordes de tradições, entre choros e culpas.
Senti-me culpado por ter, ainda que momentaneamente, praticado algo que aquele grande homem jamais quisera cultivar entre seus amigos e familiares. Bati em retirada, reflexivo, decidido a nunca mais voltar.
No trajeto até nossa casa, no Jardim Paulistano, na Campina que o pessoense João Batista dos Santos tanto nos ensinou a amar, fui me lembrando dos afagos, das flores e dos espinhos em vida. Da voz firme do professor, ecoando nas almas de centenas de milhares de alunos e amigos. Da dura pedagogia em casa e das orações silenciosas, desapegadas de toda e qualquer liturgia.
Novamente, imaginei o que eu deveria ter escrito naquele reboco frágil:
“VOCÊ NÃO ESTÁ AQUI. ESTÁ EM NÓS. ESTÁ EM MIM, PAI.”